"A pobreza é a pior forma de violência" (M. Gandhi)

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"A pobreza é a pior forma de violência" (M. Gandhi)

domingo, 17 de julho de 2011

Dádiva do Mês - Vitaminas para Criança (30 Euros)

Com estas vitaminas, podemos ajudar as crianças do Centro Wanalea e dos bairros de lata de Nairobi a crescerem com saúde!
Num momento em que o Quénia atravessa uma grave crise alimentar, estas vitaminas vão ser essenciais para que as crianças possam enfrentar esta crise com saúde! Participem! Também podem doar embalagens de vitaminas à ADDHU que nos trataremos de fazê-las chegar ao Quénia através dos nossos técnicos e voluntários no terreno!
Façam já a vossa Dádiva através do seguinte email: info@addhu.org. Contamos convosco!



Crise humanitária no Quénia

O Quénia está a atravessar uma das maiores secas dos últimos 60 anos. Segundo a ONU, trata-se de uma crise humanitária sem precedentes, que está neste momento a afectar mais de 10 milhões de pessoas, não só no Quénia mas também na Etiópia, na Somália e no Uganda.

Os preços dos bens alimentares no Quénia tem vindo a aumentar drasticamente desde o início do ano de 2011. A farinha usada para cozinhar o “ugali”, o alimento mais consumido no Quénia, sofreu aumentos na ordem dos 50%, sendo que um pacote de 2kg que custava 100 Kenya Shillings (cerca de 1 Euro) em Dezembro de 2010, custa agora 150 Kenya Shillings. Para além disso, começam também a escassear alguns bens alimentares como cereais.

Mais do que nunca, o vosso apoio é neste momento crucial pois sem ele as nossas crianças iriam ser severamente afectadas por esta crise. Mais do que nunca, a vossa solidariedade e vosso carinho estão neste momento a fazer TODA a diferença! Mais do que nunca, contamos convosco para juntos enfrentarmos este momento difícil que todos nós atravessamos!

E, mais do que nunca, queríamos agradecer-vos pelo vosso esforço e pelo vosso apoio incondicional! Obrigada por acreditarem que é possível fazer a diferença!

Asante sana...



quarta-feira, 29 de junho de 2011

ADDHU leva a língua e cultura portuguesas aos bairros de lata do Quénia



Espalhamos a língua e a cultura portuguesas em África, sem ser nos PALOP, sem ajuda nem do governo português, nem de outras instituições... Somente com os donativos gerais que recebemos das pessoas e de outras pequenas organizações que apoiam o nosso trabalho. É com enorme satisfação que iniciamos este programa não só porque nos orgulhamos de dar a conhecer o nosso país, mas também porque levamos o conhecimento e melhores oportunidades na vida a jovens de meios desfavorecidos. A língua portuguesa é falada em 5 países de África e no Brasil. É uma mais valia! 

terça-feira, 28 de junho de 2011

África...


África! A Natureza foi generosa nos atributos que lhe deu. Como, pergunto-me, pode haver tanto sofrimento num local que nos presenteia com tão magnífica visão?

Mas assim é e eu que o diga. O sofrimento daqueles meninos de olhar triste e por vezes vago que vejo nos bairros de lata na periferia de Nairobi é também, agora, o meu e nada posso contra o que sinto.

Luto a cada dia, peço, quase que imploro muitas vezes calada somente pelo meu silêncio que sufoca o grito que me apetece dar: “ Não vêem? Não entendem? Venham que eu mostro-vos…”

Cheguei já cheia de pó e a cara mascarrada do fumo dos matatus. Como sempre, fui acolhida com entusiasmo e alegria, mesmo no meio de tanta coisa feia e mal cheirosa: os telhados de zinco retorcidos que se opunham à minha passagem incólume davam lugar aos sorrisinhos e àquelas vozinhas que me diziam sempre “how are you”, olhares tristes, mas cheios de esperança e curiosidade: “trará bolachas e leite e talvez um pouco de porridge? Hum yummi!”

Sim trago tudo isso e alguma farinha para chapatis de que tanto gostam.´Por momentos é a algazarra e esquecem-se as dores, esquece-se a fome com a perspectiva de uma refeição, de uma bolacha, de um litro de leite que tão pequenos sorvem em menos de um minuto, com os olhinhos muito abertos.

Aconteceu-me, uma vez, e jamais esqueci: esbarrei com um pequenote, não tinha mais de 3 anos, de camisa de pijama suja e esfarrapada, uns calções sem cor definida de pó e porcaria que traziam agarrados e de pezinhos nús. Estave ele sentado no chão, com uma das mãos na cabeça, como se estive absorto pelos mais filosóficos pensamentos. Quando sentiu a minha presença e sem tirar a mão da cabeça, olhou-.me, de  modo profundo, mas o seu olhar estava tão vazio, sem desespero, sem dor, sem nada, que me arrepiou. Nenhuma criança devia ter um olhar daqueles, tão pesado, tão velho, ausente de sentimento.

Alegro-me por percorrer os caminhos que percorro: alegro-me por conhecer, por esses caminhos, as pessoas que conheço: alegro-me porque posso sentir alegria no meio do sofrimento, porque posso sentir a gratidão daquelas gentes, daquelas crianças e sorrio porque verdadeiramente e mesmo chorando, sou abençoada!





terça-feira, 3 de maio de 2011

A SOLIDARIEDADE EM DESTAQUE

Como medir a pobreza? A fome? O nada ter? Afinal o que é isso de “nada ter”? Para nós, muitas vezes, põe-se o problema entre o Ser e o Ter em que ganha quase sempre, neste mundo em que vivemos, o Ter porque este se confunde profundamente com o Ser. Eu sou aquilo que tenho! E em que termos medimos o que temos e assim o que somos? Vamos comparar com o quê? Com o que sentimos que queremos ou devemos Ter? Quem poderá medir tal coisa?

Mas para muitos, diria mesmo grande parte da população mundial, estas questões nem se põem pois trata-se de uma outra questão mais básica, mais premente, mais urgente: a sobrevivência: onde me posso abrigar? Terei algo para comer, limitar-me-ei a chupar pedrinhas para salivar e assim enganar a fome? Estarei segura? O triste é que isto acontece na maioria das vezes com crianças as quais, a braços com esta questão básica e instintiva da sobrevivência, nem sabem que podem sonhar, que existe algo que se chama futuro e que se, ah, se as coisas fossem um pouquinho diferentes, até podiam…até podiam Ser, pois para elas não existiria o Ter acima de tudo, mas sim o Ser! Digo-o e afirmo-o com conhecimento de causa. Sei do que falo. A minha experiência com as crianças do Centro Wanalea no Quénia revelou-me algo que, afinal, devia servir de exemplo a muitos de nós, inclusive eu, isto é o que poderei Ser e não o que poderei Ter.

Aqui voltamos ao início da questão: para que estas crianças possam Ser, alguém deve Ter para que elas construam o seu sonho, realizem o seu futuro. Deste modo, ponhamos a solidariedade em destaque e abandonemos um pouco o nosso Ter para que estas crianças e outras como elas possam Ser.

É em momentos difíceis, como o que sem dúvida passamos, em que vemos o nosso Ter tão ameaçado quase que confundido com sobrevivência, com o essencial, que devemos Solidariedade àqueles que, esses sim, nada têm, nem mesmo o sonho de Ser.

E, acima de tudo sejamos altruístas e não abandonemos aqueles que não podem ser abandonados, e contrariemos assim esta tendência do individualismo puro e egoísta que nos colocou nesta alhada de mundo em que vivemos.

Agradeço profundamente a todos os padrinhos e madrinhas das crianças do Centro Wanalea no Quénia e a todos aqueles que me apoiam com as suas Dádivas de Esperança, sejam elas em que forma forem, tantas vezes uma palavra de apreço e incentivo, pois colocam o Ser destas crianças acima do vosso Ter.
Bem hajam.


Laura Vasconcellos

segunda-feira, 21 de março de 2011

Dia Mundial Contra a Discriminação Racial

A questão da discriminação racial prende-se com a questão do entendimento do Outro, daquele que é diferente de nós, não por deficiência, sexo ou nível sócio-economico, mas sim por Raça. E o que é isto da Raça? Cor? Cultura? Situação geográfica? Talvez tenha a ver com a questão da Origem. Ora se a Origem pode ser considerada factor de discriminação racial, de diferença, também o é, por certo, factor de união. Afinal, independentemente da nossa cor, sexo, cultura, do local onde nascemos, todos somos provenientes da mesma Origem, como diria Darwin, Homo Sapiens. Então, porquê as questões raciais, desse tipo de diferença, têm causado tanto sofrimento, exclusão, maus tratos, violência e até aproveitamento sócio político e social?
Será que a criança de apenas, digamos, dois anos, empurraria uma outra da mesma idade mas por exemplo, africana ou asiática, somente por essa mesma razão? Será que essa outra criança africana, sem qualquer tipo de antecedente traumático relativamente à sua “raça” voltaria a cara a uma criança dita caucasiana? Penso que não e por experiência até posso afirmar que não. Não nos esqueçamos que mesmo entre indivíduos da mesma “raça” existem questões de outro tipo de discriminação, agora não pela cor, mas pela cultura e origem dentro dessa mesma “cor”. Refiro-me como é evidente, pois é o meu campo de trabalho onde tenho mais experiência, aos africanos cujo sistema tribal os afasta, por nuances culturais diferentes, porque eu faço as coisas desta maneira e tu de outra, porque os meus rituais são estes e não são os teus, mas afinal que há assim de tão diferente entre os indivíduos? Para não falar no passado em que a certa altura se considerou que o africano não tinha alma e por isso não era um ser humano, o que para muitos, diria mesmo a maioria, serviu de desculpa para se implementar um sistema de comercio, o comercio de escravos, gostava de me voltar para o presente em que uma sociedade dita evoluída que fala de direitos humanos e que todos somos iguais, continua a discriminar, por vezes de forma velada, o Outro, o diferente na cor, na cultura, na origem. Porque não conhece? Sim! Mas também porque muitas vezes nem se dá ao trabalho de conhecer.
Apenas alguns exemplos:
As crianças soldados na Birmânia: comentei esta questão com alguém referindo ao tratamento a que são sujeitas quando não querem pegar numa arma e matar, tratamento esse que inclui espancamentos e cortes nas pernas. Ouvi o seguinte:” Mas afinal porque te preocupas, eles sempre estiveram habituados a essas coisas…” E eu pergunto-me será o sangue de uma criança birmanesa é diferente de uma portuguesa, francesa, espanhola ou inglesa?
Quando cheguei ao Quénia em Outubro de 2007 em missão de reconhecimento do terreno, confrontei-me com algo que julgava não existir, dado este país ser um destino turístico muito conhecido: em Kissi, uma região algo remota, foi acolhida em ambiente de festa pois pela primeira vez poderiam tocar num branco. Tanto a minha pela como a cor do meu cabelo, louro, foram muito apreciados e considerados belos, macios, o que deu uma enorme satisfação àquelas gentes.
As crianças que residem no Wanalea Children’s Home quando chegaram foi com desconfiança que para mim olharam, pois para eles branco é o Outro que subjuga, que nem sempre é bom, que ignora. Depois de estarem mais à vontade, vendo que eu não era “desses” a minha pele e o meu cabelo foram tocados, mexidos e remexidos e as gargalhadas e o contentamento foi enorme. Hoje, estou convicta que quando para mim olham nem “vêem” a cor da minha pele, mas simplesmente a “mummy” que por eles trabalha, que deles cuida.
Entre as 26 crianças que estão no Centro, existem 5 tribos diferentes: Luho, Kikuyo, Massai, Meru e Kissii. Todas elas sabem a que tribo pertencem, todas elas ainda não esqueceram o dialecto que falavam antes de aprender o swahili e o inglês, todas elas se orgulham das suas raízes. Mas também todas elas sabem que fazem parte de um país que se chama Quénia e que todas elas são quenianas. Se estas crianças podem ultrapassar barreiras raciais e tribais e ter abertura para o conhecimento do Outro, porque é que a nós ditos “civilizados” nos é tão difícil fazê-lo?
Deixo esta reflexão para o dia 21 de Março, pois é preciso ainda muita coisa mudar. A tolerância tem de ir mais longe e há que ter uma maior vontade de conhecer esse “Outro” que em ultima análise é o outro lado de nós mesmos.


Laura Vasconcellos