É noite. Na região do Monte Quénia as noites são frias. O Cristiano é um menino de talvez uns 7 anos. Não se sabe ao certo. Não tem certidão de nascimento. Pai? Mãe? É um menino de rua, como tantos outros, que vagueia invisível e que se desaparecer ninguém vai notar.
Nessa noite, o Cristiano tem fome, está descalço, uns calções rotos e sujos e sem camisa.
Alguém teve pena dele.
O Cristiano chegou ao Centro Wanalea em 2008, no mês de Maio, numa noite não tão fria como as da região de Meru, no Monte Quénia. Estava um pouco assustado. Aquele ambiente era tão diferente do que estava acostumado. Havia outras crianças que sorriam e lhe davam as boas vindas. Uma senhora de olhar meigo e sorriso encantador deu-lhe um prato com feijão legumes estufados e chapati. O Cristiano arregalou os olhos ao ver o prato cheio: mal podia acreditar. Comida, sem ter de roubar, sem ter de fugir e que cheirava tão bem.
Nessa noite, grande parte do tempo a mesma senhora de olhar meigo e uma outra mais novinha tiraram-lhe das pernas, com jeitinho, as carraças que aí estavam há sabe-se lá quanto tempo. Doeu, mas aliviou!
O Cristiano nessa noite dormiu numa cama, com colchão e até um lençol e cobertor.
Nos meses que se seguiram, o Cristiano frequentou a escola no Centro com as outras crianças; fez amigos, comeu até se fartar e, a pouco e pouco, começou a rir, a brincar e foi esquecendo. Só algo ficou, como se estivesse gravado na sua memória, na sua carne: a fome! O Cristiano durante muito tempo, todas as noites levava nos bolsos do pijama e, pensava ele, às escondidas restos de comida, arroz, feijão, e dormia sossegado.
Ainda hoje, quando chega a hora da refeição e, por qualquer motivo, há um atraso, o Cristiano fica cabisbaixo, não fala, não sorri, espera...
O Cristiano é um menino adorável: tem, agora, 10 anos, certidão de nascimento com data e tudo e já festejou este ano pela primeira vez o seu aniversário com uma bonita festa, os seus irmãos e irmãs do Centro e mais alguns amigos que convidou da escola particular que agora frequenta.
Tem uma mãe "mzungo", a mummy Laura, outra mãe-irmã também "mzungo" e a mesma senhora de olhar meigo que olha por ele com carinho e um senhor que está sempre no Centro, que toma conta de tudo com a mummy Laura e que sabe ralhar quando é preciso, que sabe castigar com amor.
O Cristiano é um menino normal, feliz, que dá gargalhadas encantadoras, que faz rir toda a gente, que é um estudante um pouco preguiçoso, mas com notas satisfatórias e que, por vezes, conta umas histórias que nem ele sabe bem donde lhe vêm, mas que provavelmente são memórias que agora fazem rir e com que goza, mas que dantes magoava, e muito.
Hoje, pergunto-lhe: "Cristiano como era a tua vida antes de vires para o Centro?" Ele responde com um sorriso:"Não sei, não me lembro." E dá uma daquelas gargalhadas que tanto gosto de ouvir e sai a correr com o seu modo desengonçado, descontraído.
Afinal, o Cristiano nasceu no dia em que chegou ao Wanalea Children´s Home!
domingo, 20 de novembro de 2011
sexta-feira, 11 de novembro de 2011
Onde está a minha mãe?
São 3 e meia da tarde. Mais um dia de escola que chegou ao fim. A Georgina tem 5 anos: entra no autocarro para ir para casa e percorre o caminho olhando pela janela, vendo o bulício de Ongata Rongai que tão bem conhece. Para ela, este é o seu mundo, ou melhor o Mundo.
O autocarro pára e a Georgina sai perto da sua casa onde , como de costume, a mãe a espera. O pai morreu não há muito tempo com Sida. Trabalhava no Ministério de Educação, não ganhava mal e a família vivia numa casa modesta, mas com algum conforto. A mãe estava desempregada há já algum tempo e a vida não corria da melhor maneira. Para a Georgina a morte do pai foi simplesmente uma ausência: ela não entendeu que era para sempre, por isso não ficou triste. Tinha a mãe! No entanto, nesse dia, quando chegou a casa a mãe não estava. A Georgina procurou-a na pequena casa onde habitavam, chamou-a, chamou-a e ficou sem resposta; apenas o silêncio. Sentou-se numa cadeira e colocou a pasta no sofá. Tinha fome, queria lanchar, mas a mãe não chegava e ela não sabia o que fazer. Passado algum tempo abriu a porta de casa, saiu para a rua e chamou pela mãe. Não houve resposta. Já assustada, foi percorrendo a rua de terra batida chamando pela mãe até que uma senhora lhe pegou na mão e disse: " Quem procuras menina? Onde está a tua mãe?" Georgina respondeu timidamente e com o queixo a tremer deixando correr uma lágrima pela face: "Não sei, não sei..." "Onde moras?", perguntou a senhora. A Georgina apontou com o dedinho para o fim da rua, no sentido da sua casa. "Vamos lá ver" disse a senhora sorrindo. A Georgina deu-lhe a mão e as duas foram pela rua abaixo até à casa da menina.
"Ah, já sei quem é a tua mãe" disse a senhora, "vi-a sair de manhã, mas não a vi regressar. Vem comigo."
Assustada a menina foi com ela: tinha fome e não queria estar ali sozinha.
No dia seguinte a Georgina não foi à escola. Esperou em casa da senhora, foi inumeras vezes a casa, chamou pela mãe, mas esta não respondeu. Pelas 5 horas da tarde, a senhora resolveu levar a Georgina ao posto da polícia local e dar conta do desaparecimento da mãe da menina.
São 10 horas da manhã: a porta do Wanalea Children's Home abre-se e a Georgina entra pela mão do oficial do tribunal de menores. Esta será a sua nova casa: ali estão mais 26 crianças, todas com histórias ainda pior do que a Georgina: agora são uma família e é como família que a Georgina é recebida.
Duas semanas passaram e nem sinal da mãe da menina. O tribunal entrega a custódia da Georgina ao Wanalea Children's Home. Mesmo que a mãe apareça, o abandono da filha, que a lei severa do Quénia pune com 14 anos de prisão, é motivo suficiente para que a menina não volte a viver com a mãe. Talvez um parente: a investigação prossegue, mas a Georgina encontrou uma família e já ri novamente, voltou à escola, brinca e saltita alegremente com a que já é a sua melhor amiga, a Hilda que também tem 5 anos e é orfã.
É dia de ir ao médico fazer os exames exigidos no Wanalea Children´s Home. A Georgina é seropositiva, como a Irene que também faz parte desta família. Será tratada e com a boa alimentação e cuidados, tal como a Irene, superará a fragilidade que a doença lhe provoca.
A Georgina apresenta um estrabismo no olho direito, assim é levada ao oftalmologista. Os óculos já estão encomendados e chegam para a semana. O médico refere que com 5 anos, esta forma de estrabismo que poderia levar a menina à cegueira, pode ser tratada com sucesso. A Georgina não perderá a visão e o estrabismo desaparecerá em 2 anos.
Hoje, passado um mês, a Georgina está feliz. A mãe parece ter sido vista nas redondezas, não se sabe ao certo, mas não reclamou a filha: dizem que foi depressão pela morte do marido; dizem que fugiu com outro homem; dizem que sendo a filha seropositiva não queria cuidar dela, não se sabe o que leva uma mãe a abandonar uma menina como a Georgina. Talvez temesse não ter como a alimentar, quem sabe...
Hoje a Georgina pegou-me na mão, olhou para mim, sorriu, e disse: "mummy Laura I love you!"
O autocarro pára e a Georgina sai perto da sua casa onde , como de costume, a mãe a espera. O pai morreu não há muito tempo com Sida. Trabalhava no Ministério de Educação, não ganhava mal e a família vivia numa casa modesta, mas com algum conforto. A mãe estava desempregada há já algum tempo e a vida não corria da melhor maneira. Para a Georgina a morte do pai foi simplesmente uma ausência: ela não entendeu que era para sempre, por isso não ficou triste. Tinha a mãe! No entanto, nesse dia, quando chegou a casa a mãe não estava. A Georgina procurou-a na pequena casa onde habitavam, chamou-a, chamou-a e ficou sem resposta; apenas o silêncio. Sentou-se numa cadeira e colocou a pasta no sofá. Tinha fome, queria lanchar, mas a mãe não chegava e ela não sabia o que fazer. Passado algum tempo abriu a porta de casa, saiu para a rua e chamou pela mãe. Não houve resposta. Já assustada, foi percorrendo a rua de terra batida chamando pela mãe até que uma senhora lhe pegou na mão e disse: " Quem procuras menina? Onde está a tua mãe?" Georgina respondeu timidamente e com o queixo a tremer deixando correr uma lágrima pela face: "Não sei, não sei..." "Onde moras?", perguntou a senhora. A Georgina apontou com o dedinho para o fim da rua, no sentido da sua casa. "Vamos lá ver" disse a senhora sorrindo. A Georgina deu-lhe a mão e as duas foram pela rua abaixo até à casa da menina.
"Ah, já sei quem é a tua mãe" disse a senhora, "vi-a sair de manhã, mas não a vi regressar. Vem comigo."
Assustada a menina foi com ela: tinha fome e não queria estar ali sozinha.
No dia seguinte a Georgina não foi à escola. Esperou em casa da senhora, foi inumeras vezes a casa, chamou pela mãe, mas esta não respondeu. Pelas 5 horas da tarde, a senhora resolveu levar a Georgina ao posto da polícia local e dar conta do desaparecimento da mãe da menina.
São 10 horas da manhã: a porta do Wanalea Children's Home abre-se e a Georgina entra pela mão do oficial do tribunal de menores. Esta será a sua nova casa: ali estão mais 26 crianças, todas com histórias ainda pior do que a Georgina: agora são uma família e é como família que a Georgina é recebida.
Duas semanas passaram e nem sinal da mãe da menina. O tribunal entrega a custódia da Georgina ao Wanalea Children's Home. Mesmo que a mãe apareça, o abandono da filha, que a lei severa do Quénia pune com 14 anos de prisão, é motivo suficiente para que a menina não volte a viver com a mãe. Talvez um parente: a investigação prossegue, mas a Georgina encontrou uma família e já ri novamente, voltou à escola, brinca e saltita alegremente com a que já é a sua melhor amiga, a Hilda que também tem 5 anos e é orfã.
É dia de ir ao médico fazer os exames exigidos no Wanalea Children´s Home. A Georgina é seropositiva, como a Irene que também faz parte desta família. Será tratada e com a boa alimentação e cuidados, tal como a Irene, superará a fragilidade que a doença lhe provoca.
A Georgina apresenta um estrabismo no olho direito, assim é levada ao oftalmologista. Os óculos já estão encomendados e chegam para a semana. O médico refere que com 5 anos, esta forma de estrabismo que poderia levar a menina à cegueira, pode ser tratada com sucesso. A Georgina não perderá a visão e o estrabismo desaparecerá em 2 anos.
Hoje, passado um mês, a Georgina está feliz. A mãe parece ter sido vista nas redondezas, não se sabe ao certo, mas não reclamou a filha: dizem que foi depressão pela morte do marido; dizem que fugiu com outro homem; dizem que sendo a filha seropositiva não queria cuidar dela, não se sabe o que leva uma mãe a abandonar uma menina como a Georgina. Talvez temesse não ter como a alimentar, quem sabe...
Hoje a Georgina pegou-me na mão, olhou para mim, sorriu, e disse: "mummy Laura I love you!"
quinta-feira, 27 de outubro de 2011
Ser solidário em tempos de crise é possível!
Mesmo em tempos de crise, é possível ser solidário com quem mais precisa. Clique aqui para saber como!
domingo, 16 de outubro de 2011
Centro Wanalea acolhe mais uma menina abandonada
Na quarta-feira passada, dia 12 de Outubro de 2011, a ADDHU acolheu mais uma menina no seu Centro de Acolhimento Wanalea em Nairobi, Quénia. A menina tem 5 anos e chama-se Georgina Kabasa. As autoridades estão a tentar localizar familiares da menina, sem sucesso até agora. É pouco provável que, nestas circunstâncias, a menina regresse à sua família.
Entre os mais de 50 orfanatos que existem no distrito de Kajiado, onde se situa o Centro Wanalea, as autoridades quenianas escolheram o centro da ADDHU por considerarem ser o único local que oferece às crianças um verdadeiro ambiente de família.
Infelizmente, depois de levarmos a Georgina ao hospital para realizar exames médicos, descobrimos que a menina é seropositiva. Felizmente, ao nosso cuidado, terá acesso aos cuidados médicos que necessita para crescer com saudável e ter uma vida normal.
A Georgina ainda está a adaptar-se à sua nova casa e família, mas um sorriso já começa a esboçar-se nos seus lábios. Bem-vinda à nossa família Georgina: que encontres aqui o amor e carinho que mereces e que todos os teus sonhos se tornem realidade!
Entre os mais de 50 orfanatos que existem no distrito de Kajiado, onde se situa o Centro Wanalea, as autoridades quenianas escolheram o centro da ADDHU por considerarem ser o único local que oferece às crianças um verdadeiro ambiente de família.
Infelizmente, depois de levarmos a Georgina ao hospital para realizar exames médicos, descobrimos que a menina é seropositiva. Felizmente, ao nosso cuidado, terá acesso aos cuidados médicos que necessita para crescer com saudável e ter uma vida normal.
A Georgina ainda está a adaptar-se à sua nova casa e família, mas um sorriso já começa a esboçar-se nos seus lábios. Bem-vinda à nossa família Georgina: que encontres aqui o amor e carinho que mereces e que todos os teus sonhos se tornem realidade!
terça-feira, 13 de setembro de 2011
Viver num bairro de lata do Quénia em tempos de crise alimentar...
No bairro de lata de Mukuru em Nairobi vivem cerca de 200.000 pessoas. A alarmante subida de preços torna impossível para estas gentes o acesso aos alimentos básicos.
O mesmo acontece no bairro de lata de Soweto, Kayole, com 400,000 pessoas ou o de Kitui Ndogo, Majengo. Neste dois últimos a ADDHU tem realizado distribuição de alimentos de forma regular. Até quando? Só a boa vontade e a solidariedade de todos nós o dirá.
Como tem sido largamente noticiado a pior crise humanitária de sempre tem vindo a devastar a região do Corno de África: na semana passada o preço dos cereais atingiu novamente preços recorde no Quénia, na Etiópia e na Somália. Ainda para mais, começa a haver escassez no abastecimento de cereais e outros bens básicos. A pior seca dos últimos 60 anos em combinação com os alarmantes aumentos nos bens alimentares básicos e nos combustíveis criaram um “triângulo da fome” que deixou mais de 12 milhões de pessoas sem meios para se puderem alimentar.
No Quénia, 3,5 milhões de pessoas enfrenta uma situação de fome extrema. De acordo com dados recentes, 385.000 crianças e 90.000 mulheres grávidas e a amamentarem sofrem de má nutrição. Estas gentes que vivem em bairros de lata estão a sentir de forma bem dura os efeitos da seca. Em Nairobi estima-se que dois terços da população vive em bairros de lata.
Estas famílias têm de pagar alojamento, o uso diário de latrinas, água, querosene para cozinhar e para as lamparinas, transportes, propinas escolares (mesmo as públicas) e os cuidados de saúde (mesmo em hospitais públicos).
Por causa da seca, os preços subiram 200% e há escassez de alimentos como a farinha de um milho próprio com que fazem o ugali, base da alimentação de quase todos os quenianos.
Como é que sobrevivem? As histórias são muitas e repetem-se assustadoramente: prostituição de uma jovem mãe que recorre a esta prática para alimentar a sua filha e que passado pouco tempo, já são dois filhos e depois três, enfim, um circulo sem fim; outros dedicam-se à venda de drogas e roubo. É comum ver-se nos bairros de lata crianças que chupam pedrinhas para enganar a fome ou outras que cheiram cola para se sentirem dormentes. Muitas das raparigas que se dedicam à prostituição chegam de manhã a casa da vizinha que ficou a tomar conta dos filhos trazendo 50 shillings (cerca de 40 cêntimos), por vezes nem isso pois não foram pagas ou foram espancadas. Por vezes, trazem um pouco mais de dinheiro. Mas como continuar a sobreviver se devido à seca 1 quilo de farinha com que alimentavam os filhos por 2 dias, e que custava 50 shillings, custa agora 200? E os 8 euros que têm de pagar para viverem num buraco infecto sem qualquer tipo de condições mínimas nem para um animal, quanto mais para um ser humano? A lista é longa e conheço de perto esta realidade.
Tento, tudo faço para ajudar, não todos seria impossível, mas o maior numero possível e tenho de pedir a Deus que me dê forças para ficar feliz com os que ajudei e não chorar pelos que tive de deixar de fora. Mas confesso: é díficil, muito difícil.
E lidar com a indiferença dos meus amigos, família, com as empresas que se cobrem com o chapéu da crise para dizer NÃO. Ou outras que nem abrem o e-mail?
Tenho de agradecer a todos os que me ajudam, cuja a grande maioria nem sequer conheço, mas que respeitam o meu trabalho e o dos meus parcos colaboradores e que acima de tudo, por pouco que tenham, partilham com aqueles que nada têm.
Um grande bem hajam para estas almas grandes, para os padrinhos e madrinhas dos meus meninos, para os que têm oferecido sacas de feijão, arroz, farinha e assim ajudar-me a aliviar a fome daquelas gentes, para aqueles que telefonam para o nosso numero solidário e divulgam e pedem juntamente comigo. Não gosto de pedir: magoa-me quando me dizem que não, quando voltam a cara. Mas tenho de ser humilde e tenho de continuar a pedir, quase a implorar tendo sempre na minha mente aqueles olhinhos de aflição, mas também de gratidão: “Afinal, dizem, estes não tiraram só fotografias, estes voltaram e deram-nos comida.”
Para terminar deixem-me que vos conte uma história que uma das voluntárias que esteve no meu Centro me enviou e que me confortou:
"Um executivo em visita a uma cidade turística saiu do hotel em que estava hospedado certa manhã para caminhar. Quando chegou à beira da praia, deparou com uma visão atordoante: inúmeras estrelas-do-mar haviam sido lançadas na praia durante a noite pela maré alta. Ainda estavam vivas e se moviam, subindo umas em cima das outras na tentativa de voltar para o oceano. Aquele homem tinha consciência de que não demoraria muito até que o sol cozinhasse aquelas pobres criaturas. Ele queria fazer alguma coisa, mas havia milhares delas, até onde se os olhos podiam ver e, qualquer tentativa de salvar todas elas seria inútil.
Assim, seguiu em frente. Caminhando um pouco mais pela praia, viu um menino que se abaixou, pegou uma estrela-do-mar e jogou-a como um frisbee de volta ao oceano. O menino repetiu o processo várias e várias vezes, aumentando cada vez mais a velocidade, numa óbvia tentativa de salvar o máximo possível delas.
Percebendo a intenção do menino, o executivo sentiu-se na obrigação de ajudá-lo e também ensinar-lhe uma dura lição de vida. Foi até o pequeno e disse:
- Filho, deixe-me dizer-lhe uma coisa. O que você está fazendo aqui é nobre, mas não é possível salvar todas essas estrelas-do-mar. Existem milhares delas. Está começando a ficar muito quente, e todas elas vão morrer. É melhor você seguir seu caminho e brincar. Não dá para faze nenhuma diferença aqui.
O menino não disse nada num primeiro momento; ficou simplesmente olhando para o executivo. Então, abaixou-se, pegou outra estrela-do-mar, jogou-a no oceano o mais longe que pôde e disse:
- Bom, eu fiz toda diferença para essa aqui."
Obrigada Marta!
O mesmo acontece no bairro de lata de Soweto, Kayole, com 400,000 pessoas ou o de Kitui Ndogo, Majengo. Neste dois últimos a ADDHU tem realizado distribuição de alimentos de forma regular. Até quando? Só a boa vontade e a solidariedade de todos nós o dirá.
Como tem sido largamente noticiado a pior crise humanitária de sempre tem vindo a devastar a região do Corno de África: na semana passada o preço dos cereais atingiu novamente preços recorde no Quénia, na Etiópia e na Somália. Ainda para mais, começa a haver escassez no abastecimento de cereais e outros bens básicos. A pior seca dos últimos 60 anos em combinação com os alarmantes aumentos nos bens alimentares básicos e nos combustíveis criaram um “triângulo da fome” que deixou mais de 12 milhões de pessoas sem meios para se puderem alimentar.
No Quénia, 3,5 milhões de pessoas enfrenta uma situação de fome extrema. De acordo com dados recentes, 385.000 crianças e 90.000 mulheres grávidas e a amamentarem sofrem de má nutrição. Estas gentes que vivem em bairros de lata estão a sentir de forma bem dura os efeitos da seca. Em Nairobi estima-se que dois terços da população vive em bairros de lata.
Estas famílias têm de pagar alojamento, o uso diário de latrinas, água, querosene para cozinhar e para as lamparinas, transportes, propinas escolares (mesmo as públicas) e os cuidados de saúde (mesmo em hospitais públicos).
Por causa da seca, os preços subiram 200% e há escassez de alimentos como a farinha de um milho próprio com que fazem o ugali, base da alimentação de quase todos os quenianos.
Como é que sobrevivem? As histórias são muitas e repetem-se assustadoramente: prostituição de uma jovem mãe que recorre a esta prática para alimentar a sua filha e que passado pouco tempo, já são dois filhos e depois três, enfim, um circulo sem fim; outros dedicam-se à venda de drogas e roubo. É comum ver-se nos bairros de lata crianças que chupam pedrinhas para enganar a fome ou outras que cheiram cola para se sentirem dormentes. Muitas das raparigas que se dedicam à prostituição chegam de manhã a casa da vizinha que ficou a tomar conta dos filhos trazendo 50 shillings (cerca de 40 cêntimos), por vezes nem isso pois não foram pagas ou foram espancadas. Por vezes, trazem um pouco mais de dinheiro. Mas como continuar a sobreviver se devido à seca 1 quilo de farinha com que alimentavam os filhos por 2 dias, e que custava 50 shillings, custa agora 200? E os 8 euros que têm de pagar para viverem num buraco infecto sem qualquer tipo de condições mínimas nem para um animal, quanto mais para um ser humano? A lista é longa e conheço de perto esta realidade.
Tento, tudo faço para ajudar, não todos seria impossível, mas o maior numero possível e tenho de pedir a Deus que me dê forças para ficar feliz com os que ajudei e não chorar pelos que tive de deixar de fora. Mas confesso: é díficil, muito difícil.
E lidar com a indiferença dos meus amigos, família, com as empresas que se cobrem com o chapéu da crise para dizer NÃO. Ou outras que nem abrem o e-mail?
Tenho de agradecer a todos os que me ajudam, cuja a grande maioria nem sequer conheço, mas que respeitam o meu trabalho e o dos meus parcos colaboradores e que acima de tudo, por pouco que tenham, partilham com aqueles que nada têm.
Um grande bem hajam para estas almas grandes, para os padrinhos e madrinhas dos meus meninos, para os que têm oferecido sacas de feijão, arroz, farinha e assim ajudar-me a aliviar a fome daquelas gentes, para aqueles que telefonam para o nosso numero solidário e divulgam e pedem juntamente comigo. Não gosto de pedir: magoa-me quando me dizem que não, quando voltam a cara. Mas tenho de ser humilde e tenho de continuar a pedir, quase a implorar tendo sempre na minha mente aqueles olhinhos de aflição, mas também de gratidão: “Afinal, dizem, estes não tiraram só fotografias, estes voltaram e deram-nos comida.”
Para terminar deixem-me que vos conte uma história que uma das voluntárias que esteve no meu Centro me enviou e que me confortou:
"Um executivo em visita a uma cidade turística saiu do hotel em que estava hospedado certa manhã para caminhar. Quando chegou à beira da praia, deparou com uma visão atordoante: inúmeras estrelas-do-mar haviam sido lançadas na praia durante a noite pela maré alta. Ainda estavam vivas e se moviam, subindo umas em cima das outras na tentativa de voltar para o oceano. Aquele homem tinha consciência de que não demoraria muito até que o sol cozinhasse aquelas pobres criaturas. Ele queria fazer alguma coisa, mas havia milhares delas, até onde se os olhos podiam ver e, qualquer tentativa de salvar todas elas seria inútil.
Assim, seguiu em frente. Caminhando um pouco mais pela praia, viu um menino que se abaixou, pegou uma estrela-do-mar e jogou-a como um frisbee de volta ao oceano. O menino repetiu o processo várias e várias vezes, aumentando cada vez mais a velocidade, numa óbvia tentativa de salvar o máximo possível delas.
Percebendo a intenção do menino, o executivo sentiu-se na obrigação de ajudá-lo e também ensinar-lhe uma dura lição de vida. Foi até o pequeno e disse:
- Filho, deixe-me dizer-lhe uma coisa. O que você está fazendo aqui é nobre, mas não é possível salvar todas essas estrelas-do-mar. Existem milhares delas. Está começando a ficar muito quente, e todas elas vão morrer. É melhor você seguir seu caminho e brincar. Não dá para faze nenhuma diferença aqui.
O menino não disse nada num primeiro momento; ficou simplesmente olhando para o executivo. Então, abaixou-se, pegou outra estrela-do-mar, jogou-a no oceano o mais longe que pôde e disse:
- Bom, eu fiz toda diferença para essa aqui."
Obrigada Marta!
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